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Projeto
S
em dúvida é muito gratificante a incumbência de tecer alguns comentários sobre a rica experiência de ter sido bolsista do Japão na área de Saúde Pública. Estive em Kurume em 1995, uma linda cidade de 230.000 habitantes, situada no sul do Japão, na província de Fukuoka. Possuía uma Universidade e um Museu com importante acervo de arte incluindo uma obra de Pablo Picasso. O comércio era bem desenvolvido e havia indústrias, destacando-se o ramo de pneus e calçados.
Sendo médica epidemiologista com formação em clínica de doenças infecciosas e parasitárias, resolvi abordar a esquistossomose, um problema erradicado do Japão e ainda atual no Brasil. Abordarei o modo como foi possível erradicar a doença em Kurume e comparar semelhanças e diferenças do problema nos dois países.
A esquistossomose no Japão era causada pelo
Schistossoma japonicum, um pouco maior e mais delgado do que o
Schistossoma mansoni encontrado na América do Sul. Foi descoberto em 1904 pelo Dr. Katsurada e em 1913 os Drs. Miyairi e Suzuki descobriram o
Oncomelania nosophora, caramujo que serve de hospedeiro intermediário ao
Schistossoma japonicum e um dos importantes elos da cadeia de transmissão. Também este é diferente do
Biomphalaria glabrata que transmite o parasito ao homem no Brasil. Os ciclos biológicos das duas espécies de parasitos são semelhantes: os ovos expelidos junto com as fezes dos indivíduos infectados infestam as águas dos rios e córregos, libertam uma primeira larva que penetra nos caramujos e são eliminadas destes em uma forma infectante para o homem, denomina
da “cercaria”. Banhando-se nestas águas infestadas o homem e outros animais adquirem a parasitose através da pele. A cercaria percorre um longo caminho no organismo humano onde termina por se alojar em forma adulta principalmente no fígado e se reproduz de modo sexuado, eliminando ovos junto com as fezes, fechando assim o ciclo. Quebrar essa corrente exige profundo conhecimento sobre o comportamento de cada um dos seus elos. Em 1956, o Departamento de Parasitologia da Kurume University School of Medicine mapeou o
habitat da
Oncomelania nosophora localizado em ambas as margens do Rio Chikugo. Em seguida iniciaram-se as ações objetivando a ruptura da cadeia de transmissão centrando-se na tentativa de erradicação dos caramujos. Inicialmente foram usadas substâncias químicas e iniciou-se a construção de um dique de cimento ao longo dos 70 km de
margens do rio. As margens do rio acima do dique foram transformadas em praças para a prática de esportes, notadamente o golfe. As áreas destinadas ao plantio de arroz foram transferidas para outras áreas e mantém-se um rigoroso sistema de vigilância dado a impossibilidade de erradicar os caramujos. Um sistema de vigilância rigorosa significa contar com a cooperação incondicional da população e ai pode-se encontrar uma diferença radical entre o Japão e o Brasil, necessitando ser estudada em suas causas mais profundas. Por que as doenças no Japão são controladas por leis? O que leva uma população acreditar na justeza da lei e empenhar-se em obedecer e fazer obedecer ao que está escrito? Seria isso possível no Brasil? Por que haveria a “Revolta da Vacina” no Brasil e no Japão todos obedecem à lei da esquistossomose, da hanseníase, da tuberculose, etc.? Primeiro seria necessário pensar nas raízes históricas de cada um dos povos. Primeiro não existe no Japão a brutal desigualdade social que conhecemos no nosso país, agravada pela qualidade do ensino e pela falta de confiança nas instituições. Enquanto no Japão os cidadãos recebem as leis em sua casa e devem assinar que leram, no Brasil dos analfabetos funcionais o conhecimento da lei deve ser buscado ativamente. No Japão existem severas sanções para os “rebeldes”, mas isso é suficiente? A lei da esquistossomose proíbe o banho de rio, é verdade, mas existe um fiscal a cada curva do rio, diuturnamente? Ou os japoneses confiam nas leis e nos legisladores? Sabem que as leis são importantes para prevenir as doenças e cada um faz sua parte? No caso da esquistossomose, além da necessidade